2 de mar. de 2026

Higeki no Genkyou - Capítulo 14

 Capítulo 14 — O irmão mais novo atravessa a noite

— …Ugh… Aaaah…

— Quem é? Alguém está chorando.

Na escuridão absoluta, num vazio completamente negro, ecoam gemidos que soam como choro. …Sou eu.

— Oh, Stale, como voltou rápido!

Alguém se aproxima. É uma mulher com o rosto negro, como se tivesse sido pintado de tinta; suas feições são impossíveis de distinguir.

Ah, claro. Eu voltei depois de matar minha mãe por ordem dela.

Mamãe ficou feliz em me ver, mas também muito surpresa. Quando eu gritei desesperado:

— Fuja!

Ela congelou, sem entender o que estava acontecendo e caiu sob a lâmina que eu empunhava.

Suas últimas palavras.

— Stale… por quê?

— ainda ressoam nos meus ouvidos. Ela jazia no chão, sangrando, chorando.

Eu não consegui sequer olhar para o rosto dela. Deixei-a ali, caída no chão. Eu… eu… eu… eu…!

— Você voltou sem ser notado, exatamente como eu ordenei. Muito bem, muito bem.

A mão dela acaricia minha cabeça com falsa ternura, e isso me causa náusea. A satisfação em sua voz desperta em mim um impulso assassino. Rosno como uma fera e avanço com a mesma faca que matou minha mãe, mirando sua garganta.

Mas, no último instante, minha mão para. Não há hesitação e ainda assim, meu corpo não obedece.

— Ahaha, que tolo. Você acha mesmo que pode matar sua senhora, com quem firmou um contrato de submissão?

Ela ri. O som me revira o estômago.

— Por quê?! Por que me fez matar minha própria mãe?! O que ela fez a você?! O que eu fiz?!

Eu grito com todas as forças, mas é como se minhas palavras jamais a alcançassem.

— Nada. Ora, simplesmente porque é divertido! Ah, meu querido escravo Stale… você tem tornado meus dias tão agradáveis ultimamente!

Ela sorri. Não é o sorriso inocente de uma criança é um sorriso cruel.

— Então me mate! Se é tão divertido me torturar, acabe logo com isso!

Neste mundo sem minha mãe, não me resta mais nada ao qual me apegar.

— Hein? Não foi você quem prometeu que me mataria quando fez o contrato? E agora quer morrer? Deseja se juntar à sua mamãe no além?

A lâmina treme contra sua garganta. Bastaria um pouco mais de força.

— Então eu ordeno: está proibido de tirar a própria vida. E também está proibido de contar a qualquer pessoa o que aconteceu hoje… ou sobre esta ordem.

— O quê…

Ela não me permite nem morrer.

— Ah, que expressão maravilhosa! Mantenha-a por um tempo. Bem, até amanhã, Stale. Não se esqueça de lavar esse sangue imundo da camponesa antes da celebração de amanhã.

Ela ri. O riso mistura-se à respiração quente.

Eu desabo de joelhos e golpeio o chão com os punhos. Uivo, esquecendo que sou humano. Se ao menos pudesse cravar a faca em mim mesmo e pôr fim a tudo…

Mas não posso mais morrer. Recebi uma ordem.

Eu não a perdoarei.

Aquela mulher… aquele demônio em forma humana.

Um dia, vingarei minha mãe.

É apenas por isso que continuo vivo.


— Stale-sama, bom dia.

O som das cortinas sendo abertas me desperta. A criada veio me acordar.

— Bom dia…

Respondo com esforço, percebendo que já é manhã. Afundo novamente sob as cobertas, evitando a luz intensa da janela, e esfrego os olhos.

…O que foi aquilo? Eu estava sonhando…

Mas não consigo lembrar do quê. A criada comenta que eu parecia inquieto, que chorava durante o sono. Não sei se foi um sonho bom ou ruim. Apenas as lágrimas mornas em meus olhos indicam que não era algo alegre.

Depois que perdi minha mãe, não chorei nem mesmo nos sonhos. E, ainda assim, agora sinto as lágrimas em meu rosto ao me levantar da cama.

Embora… fora dos sonhos, houve momentos em que chorei.

Meu rosto arde ao lembrar dos acontecimentos recentes envolvendo Pride. As recordações me envergonham, mas ao mesmo tempo aquecem meu coração.

Enquanto as criadas me ajudam a vestir, verifico a agenda do dia.

Ah, claro… hoje…

— Até amanhã, todos os preparativos para a celebração do aniversário de Tiara-sama estarão concluídos.

Tiara a irmã mais nova de Pride e minha futura meia-irmã é a segunda princesa deste reino.

Ainda não a conheci pessoalmente, mas seu aniversário e apresentação oficial ocorrerão amanhã.

— Obrigado. Pride está ansiosa por isso… e eu também aguardo com expectativa.

Sorrio, e a criada retribui com delicadeza.

Tiara Royal Ivy a segunda princesa deste reino. Se Pride a espera com tanto entusiasmo, então eu também ficarei feliz em conhecê-la. Ouvi dizer que, desde pequena, ela teve saúde frágil. Se for assim, devo protegê-la. Mamãe, papai, Pride e todo o povo aguardam seu aniversário com alegria.

Termino de me arrumar e deixo o quarto, caminhando pelo longo corredor até alcançar a escadaria.

— Bom dia, Stale.

A voz vem de cima.

É a pessoa que mais deve ser amada neste reino. E a mais importante para mim.

— Bom dia, Pride.

Não me engano.

Meu único desejo é a felicidade de Pride. Apenas a felicidade dela.

Amanhã é o aniversário de Tiara-sama. E, nesse mesmo dia, a rainha nossa mãe encontrará Pride, que oficialmente me acolheu como seu irmão adotivo.

Para mim, só há uma coisa que importa.

Tudo é por Pride.

Sim… apenas por ela.


Gangsta - Capítulo 03

 Capítulo 03

Para que a história faça sentido, é preciso primeiro recontar os acontecimentos que ocorreram dois dias após aquela noite mencionada anteriormente.

Ao entardecer, Worick e Nicolas foram atacados por um grupo de homens de terno preto. Embora os Benriya já tivessem passado por algo semelhante dias antes, era preciso admitir que, nesta cidade, a especialidade dos homens de preto não era negócios era violência. O que, francamente, não surpreendia ninguém.

Os dois devolveram o ataque na mesma moeda. Mesmo que os Benriya não usassem gravatas, sua especialidade também era a violência. E, se dependesse de Worick, eles eram até mais elegantes nisso porque sabiam usar a cabeça.

Os homens estavam armados. Sabiam exatamente o que significava puxar um gatilho não havia hesitação. Por isso, os Faz-Tudo não tiveram escolha senão matá-los.

Simples assim.

Exceto pelo problema óbvio: deixar vários corpos espalhados por aí, mesmo em um beco fedido, não era opção. Worick podia não parecer, mas se considerava um simpatizante da causa da “limpeza urbana”. Além disso, nesta cidade vivia um velho cão com faro apurado para pólvora e sangue.

Cinco minutos após o ataque e pouco mais de dois depois que tudo terminou um velho policial grisalho apareceu em um sedã antiquado.

— Vocês de novo, malditos moleques Benriya! Quantas vezes tenho que repetir que não façam bagunça sem permissão?!

Era Chad Atkins, inspetor da Primeira Divisão do Departamento de Investigações Criminais da Polícia Central. Ele conhecia Worick e Nicolas desde que chegaram a Ergastulum.

Mais de cinquenta anos. Vinte deles em serviço ativo, no mínimo. Um policial sujo exemplar, que sabia sobreviver naquela cidade.

E que nunca deixara de implicar com eles.



Chad analisou os corpos.

— E tinham que matar justo esses caras problemáticos, né? A polícia não é lixeira da cidade!

Nicolas fez um gesto irritado em língua de sinais.

“Até a lixeira faz trabalho melhor que ele.”

Chad virou-se e acertou-lhe um soco.

— Cala a boca, pirralho!



Descobriu-se então que os mortos pertenciam aos remanescentes da Família Lombardi.

Não uma grande máfia tradicional, mas um grupo jovem envolvido com algo chamado “dinamite”: vendiam Twilights envenenados, à beira da morte, junto com doses concentradas de Celebrer apenas o tipo estimulante.

A ideia era simples e monstruosa: dopar um Twilight condenado com overdose do estimulante e enviá-lo como arma viva contra o inimigo. Quando o efeito passasse, ele morreria.

Uma bomba humana.



No dia seguinte, as notícias confirmaram: além da Família Lombardi, membros importantes de outras famílias também haviam sido mortos.

Alguém estava caçando a máfia.

E Daniel Monroe queria ver Worick e Nicolas.


O Jantar com Daniel Monroe

O encontro aconteceu num luxuoso restaurante italiano pertencente ao próprio Monroe.

Ele era um dos Quatro Padrinhos pilares que sustentavam o frágil equilíbrio de Ergastulum.

Monroe comia pizza como se estivesse numa conversa casual.

— Estão falando disso na TV agora. Quatro mortos no último fim de semana.

Ataques sistemáticos. Mesmo padrão da aniquilação dos Lombardi.

Worick negou envolvimento.

Monroe disse saber que eles eram neutros.

Mas deixou claro: o que importa são fatos.

— Ataques contra nós não trazem nada de bom. Se alguém faz isso mesmo assim… deve haver algo a ganhar.

A tensão era invisível, mas pesada.

Nicolas, quebrando o costume, falou em voz alta:

— Quais são suas condições?

Monroe sorriu como quem acaricia um cão fiel.

— Carne barata sempre terá gosto ruim, não importa como seja preparada.

O recado estava dado.



Dario

Após o jantar, Worick ligou para Dario e o convidou para beber.

Desde que os assassinatos começaram, o nome de Dario lhe rondava a mente.

Recém-chegado à cidade. Estranho. Imprevisível.

Twilights seguem três regras fundamentais. A principal: não desequilibrar Ergastulum.

Caçar mafiosos era estupidez suicida.

Mas Dario era novo ali.

Talvez não entendesse o “bom senso” da cidade.



Beberam juntos num bar espanhol barato.

Dario falava demais, ria alto, esquecia tudo menos o que considerava importante.

Falou do seu Fiat roxo berrante, com um cachorro pintado no capô. Falou de uma garota que elogiara o carro.

Falou de memórias.

E então, quando saíam sob chuva fina, um sedã preto bloqueou a rua.

Cinco pessoas de terno.

Armas sacadas.


O Ataque

Worick reagiu e se escondeu atrás de um muro.

Dario, ainda bêbado ou talvez não  caminhou na direção dos atiradores.

Levou um tiro na coxa.

Worick tentou salvá-lo.

Mas acabou cercado.

Golpeado.

Apagou.


O Cativeiro

Acordou num galpão abandonado.

Amarrado.

Três capangas à sua volta.

Uma mulher cujo ombro ele atingira queria vingança.

Ela o acusava de ser um dos assassinos da máfia.

Preparava-se para disparar seis tiros “acidentais”.

Então—

Um estrondo.

A porta de metal foi arrebentada.

O Fiat roxo invadiu o galpão como um aríete.

O cachorro pintado parecia sorrir ainda mais largo.

Era Dario.

Ensanguentado. Determinado.

Cortou as amarras de Worick.

— Você salvou Johann. Agora é minha vez.

Trocaram tiros.

A mulher caiu.

O carro ficou destruído.

Dario desabou no chão.

— Me leva pro hospital. Tô todo ferrado.

Worick acendeu um cigarro.

Dario também.

O motor do Fiat soltava fumaça preta.

— Uma pena seu carro — disse Worick.

Dario olhou para o cachorro pintado.

— Já esqueci dele.




Worick fechou os olhos por um instante, como numa breve oração silenciosa ao carro roxo.

Depois perguntou:

— Já leu Nietzsche?

— Nietzsche? É atriz pornô?

— Isso mesmo. Muito estimulante.

Talvez os assassinos da máfia fossem terroristas.

Ou talvez fossem apenas idiotas matando quem não gostavam.

— Pra mim, pin-up boa tem que ter bunda grande — murmurou Dario.

— Não faço ideia do tamanho da do Nietzsche — respondeu Worick.

A cinza do cigarro caiu no rosto de Dario.

Ele nem se mexeu.

Nota:
Bacalada = bacalhau seco (stockfish).

 

Me tornei uma Healer em outro mundo - Capítulo 05

 Capítulo 05 — Slime é mesmo algo para se caçar?

No terceiro dia, Falco tomou um café da manhã delicioso preparado por Shou e saiu para caçar de ótimo humor.

Seus olhos castanho-claros e o rosto sempre sujo de poeira contrastavam com o cabelo escuro e a expressão animada. Falco parecia mais o irmão japonês do vizinho do que alguém de outro mundo.

— Um dia você vai entender quando chegar à cidade… Talvez por estarmos no norte da Floresta Profunda, mas há muita gente com olhos e cabelo da mesma cor que os do Leon.
— Eu e o Falco vamos chamar atenção?
— Pessoas com a nossa coloração são comuns nas planícies. Minha mãe era caçadora e gostava de viajar. Eu nasci nas planícies. Então eu me destaco um pouco… mas nada muito incomum.
— E o pai do Falco…?
— Está nas planícies. Lá quase não há monstros, e minha mãe acabou ficando entediada e voltou logo depois. Duzentos anos é muito tempo é bom conviver com todo tipo de gente.
— Duzentos?! Você vai viver até os duzentos?!
— Hm? Claro… Você acha que alguém vira adulto aos vinte e só tem filhos até os cento e cinquenta? Talvez eu passe um pouco disso.
— Uau…
— Por isso homens e mulheres precisam aprender um trabalho sério, algo que possam exercer por muito tempo.
— Sim!
— Bem, acho que está na hora de começarmos o treino de espada.
— Hein, Falco…

Eu já tinha dito que não treinaria com espada. Estava prestes a repetir isso quando Falco completou:

— Primeiro você precisa derrotar pelo menos um slime, certo?

Ele falou como se fosse óbvio. Mas que absurdo!

— Quer dizer… eu consigo derrotar.
— Foi você quem disse. Estou ansioso para ver.

Droga. Não devia ter falado aquilo.

Pensando bem, se eu não conseguisse derrotar um slime, talvez realmente não devesse treinar com espada. Mas também não queria que o esforço diligente dos últimos dois dias fosse em vão.

Depois de limpar a cabana, Shou pegou um balde com água, enfiou dois palitinhos finos no bolso do casaco de Falco, segurou um galho comprido e prendeu a adaga ainda na bainha a uma tira amarrada como se fosse um obi.

— Estou parecendo alguém indo pescar…

Resmungando sozinha, saiu para procurar slimes embora nem precisasse procurar. Eles estavam por toda parte.

Toc. Cutucou o slime com o galho.
Sshhh. Ele cuspiu ácido.
Toc, toc. Mais duas investidas à distância.
Então, aproximando-se com coragem, avançou e cortou o slime com a adaga.

A criatura perdeu a forma silenciosamente, até que restou apenas uma pequena pedra mágica azul-clara.

Com os palitinhos, Shou a pegou e ergueu contra a luz do sol.

— Que bonito…

A cada dez pedras coletadas, ela trocava a água do balde. Ao meio-dia, já tinha trinta.

Estou entediada. Ainda há slimes demais.

À tarde, verificou os mantimentos, preparou sopa e fatiou carne seca e pão. Aos dez anos, já não era tão pequena mas ainda não tinha a destreza de um adulto. Descascar e cortar batatas e legumes levava tempo.

Mesmo assim, podia cozinhar com calma. Quando se lembrava da vida agitada que tivera antes, isso a deixava genuinamente feliz.

— Cheguei! Shou!
— Bem-vindo, Falco!

Falco sempre a erguia no ar. Apesar da aparência de alguém na casa dos vinte, ele era um caçador robusto. Dizia que crianças devem ser levantadas, e como Shou ainda não conhecia o suficiente daquele mundo para contestar, aceitava ser erguida como se fosse apenas uma menina.

— E então? Conseguiu derrotar algum slime hoje?
— Sim!
— Oh! Mesmo? Não se machucou, né? Levou poção com você?

Ah. Esqueci.

— Se você se ferir, a poção ajuda a curar rápido. Um caçador sempre precisa carregar uma.

Não estou tentando virar caçadora… Mas vou tentar não esquecer. Não quero ficar com cicatrizes.

— Olha isso!

Ela mostrou o balde.

— Você… isso é…
— Parei nos trinta.
— Entendo… você conseguiu…

Falco parecia… decepcionado?

— Quando Leon vier, posso tirar um dia para ver como você caça slimes. Ei, por que está franzindo o nariz?

Porque você parece um pescador. Nada estiloso.

— Como seu responsável, tenho o direito não, o dever de acompanhar.

Ele disse que é dever! Está se divertindo, com certeza.

— Bem, os slimes estão por toda parte. Trinta por dia é um bom número.
— O quê? Eu fico entediada.
— Mesmo entediada, você precisa continuar.
— Sim…

E assim, depois de quatro dias convivendo com slimes, chegou o dia de descanso.

— Vamos! Caçar slimes!

Falco estava estranhamente animado.

Sem dizer nada, Shou suspirou e foi para o quarto.

— Ei? Por que o quarto?

Ela voltou com um pedaço de corda, que amarrou como um obi firme na cintura. Encheu o balde com água, prendeu os dois palitos e a adaga ao cinto e encarou Falco em silêncio.

Shou falava pouco. Expressava-se com os olhos.

Significava: Estou pronta. Vamos.

Do lado de fora, pegou o galho comprido apoiado na parede e lançou outro olhar significativo.

— Você… está parecendo… uma pescadora… haha Falco não conseguiu segurar a risada.

No instante seguinte, algo estalou contra sua perna.

— Shou! Perigoso! Não me bata com o galho! Ai! Haha! Desculpa! Ai! Boa postura de espada, Shou! Boa caçadora! Ai!

O ataque era preciso.

Ela realmente tinha talento para a espada.

Falco demorou um pouco para acalmá-la. Ele a provocava demais não era boa ideia.

Ainda assim, não conseguia esconder a surpresa.

Ele próprio podia derrotar dezenas de slimes sem dificuldade. Mas, quando era criança, nunca fora tão eficiente. Competia com os amigos para ver quem aguentava mais ataques de ácido. Era divertido brincar na margem da segurança.

Shou não brincava.

Ela agia com cálculo.

Nem usava magia.

Pegava a pedra mágica com aqueles palitinhos estranhos e a lançava no balde. Fim.

É verdade que perto da cidade não há tantos slimes… Mas, desse jeito, daria para viver apenas caçando slimes. Ela não precisa de mim para… não, não, ninguém vive só de slimes.

— Falco, tem alguém além do Leon vindo para cá.

A visão de Shou já estava completamente recuperada; ela enxergava longe. Falco, como caçador, também tinha boa visão.

— É verdade… Ei, mas o que o monge…
— O que acha? Por que está tão nervoso?
— Não fiz nada errado, certo? Está tudo bem… vai dar tudo certo.
— Falco.
— O quê, Shou?
— O que houve?
— É o monge. A autoridade máxima da Igreja. Acho que veio ver você.
— A mim?
— Afinal, você consegue usar magia de cura.
— Ohh…

Finalmente.

 

Fushichou e no Tensei - Capítulo 11

 Capítulo 11 — O Dragão

Quanto tempo já se passou desde que decidi me tornar mais forte?

Provavelmente não, com certeza mais tempo do que levei desde que nasci até o dia em que voei para fora daquele lugar pela primeira vez.
Se aquilo tiver sido um mês, então talvez já tenham se passado seis.

Não tenho com o que comparar, mas acredito que fiquei bem mais forte.

A maior descoberta desse período ou melhor, o maior aprendizado foi perceber que eu sou uma ave de fogo.

Assim que decidi me fortalecer, comecei a treinar voo na floresta. As árvores eram imensas e cresciam densas umas contra as outras; imaginei que atravessar aquele emaranhado seria um bom exercício.

Foi muito mais difícil do que eu esperava. Eu não conseguia ler o vento e, na maior parte do tempo, voava apenas à base de força vital. Percebi que aquilo não bastava. Resolvi então voar preparado para colidir e, como era de se prever, quase me choquei contra uma árvore.

“Vou bater!”

Fechei os olhos… mas a dor não veio. Quando os abri, ainda estava voando normalmente. Eu tinha certeza de que havia atingido o tronco e, no entanto, era como se tivesse atravessado por ele.

Lembrei-me de que as rochas lançadas pelo dragão também não haviam me atingido. Havia algo ali. Decidi tentar de novo dessa vez, sem fechar os olhos.

Foi aterrorizante. Mas valeu a pena.

Meu corpo se transformou em chamas e atravessou a árvore.

Parece que, sempre que estou prestes a colidir com algo, meu corpo se converte em fogo. Provavelmente foi isso que aconteceu com as rochas do dragão: no instante do impacto, tornei-me chama e evitei o dano.

Depois de compreender isso, comecei a fazer vários experimentos.

Normalmente, possuo um corpo físico. Porém, diante do perigo, transformo-me instintivamente em fogo. Passei então a testar se conseguiria assumir essa forma de maneira consciente, ou lançar chamas não apenas pela boca, mas também pelo próprio corpo.

Os resultados foram animadores.

Consegui transformar partes do corpo em fogo à vontade e até disparar essas chamas como ataque.

Descobri também que essa forma ígnea está diretamente ligada à minha força vital.

Nos últimos tempos, minha reserva de força vital aumentou consideravelmente. Sempre a utilizo quando voo em alta velocidade. Houve uma ocasião em que quase a esgotei por completo e, naquele momento, fui incapaz de assumir a forma de fogo.

Toda vez que produzo chamas ou me transformo nelas, consumo força vital.

Se ela se esgotar por completo… provavelmente morrerei.

Por isso, concentrei meus esforços principalmente em ampliá-la.

E agora, vou sair novamente.

Estou dentro da caverna, diante da estátua.

Acho que desta vez não voltarei tão cedo.

Até logo. Fique bem.

Despedi-me em silêncio e segui em direção ao buraco no teto.

Subi com uma velocidade incomparavelmente maior do que na primeira vez, alcançando rapidamente a grande abertura à esquerda.

Ao emergir, vi que, como sempre, o céu além da ilha continuava coberto por nuvens negras. Passei tanto tempo treinando aqui e nunca as vi se dissiparem. Não sei por que apenas o céu acima desta ilha permanece limpo.

Decidi sobrevoar a ilha mais uma vez.

Não havia nenhum outro ser vivo ali além de mim. Por mais que cruzasse a floresta, não encontrava sequer um inseto. Talvez nenhuma criatura se aproxime desta ilha. Mesmo com um dragão colossal habitando os céus, ninguém ousa chegar perto.

Ainda bem que sou um monstro que não precisa comer. Se dependesse de alimento, já teria morrido.

Certo. Vou subir.

Somente acima desta ilha o céu é puro.

Impulsiono-me em direção a ele.

Na verdade, eu poderia simplesmente voar sob as nuvens negras e alcançar outra ilha em segurança.

Mas não sei explicar eu quero ir para o alto.

Atravesso as nuvens escuras e continuo subindo, até ficar acima delas.

Dali, o céu azul se estende magnífico. O mar lá embaixo permanece oculto sob o manto negro das nuvens, mas o azul infinito acima é libertador.

Então...

Ele surgiu.

Ao virar à direita, vi um dragão negro.

Provavelmente o mesmo de antes.

Está mais distante do que naquela ocasião, mas justamente por isso sua dimensão se destaca ainda mais.

Antes de iniciar meu treinamento, eu queria ficar mais forte para fugir dele.

Agora, estou aqui para derrotá-lo.

Talvez eu tenha mudado desde que me tornei uma ave. Em minha vida passada, jamais pensaria em enfrentar um oponente como esse.

Mas agora… quero vencê-lo.

Percebo em mim um instinto combativo.

Diante de um adversário dessa magnitude, sinto meu sangue ferver de excitação.

Há cerca de seis meses, tudo o que senti foi desespero ao encará-lo.

Agora, por algum motivo, acredito que posso vencer.

Vamos, dragão.

Lute comigo.

Eu serei aquele que o derrotará.


 

24 de fev. de 2026

Welcome to Cheap Restaurant Vol. 01 - Capítulo 04

  Capítulo 04 : Preparativos para a Abertura e a Escrava Exilada (Parte Final)


 Quando Dennis ainda era pequeno.

Vivendo nas sombras dos becos que se escondiam atrás do brilho da capital, sobrevivendo de restos e ratos.

Naquelas noites, o mais importante era não se mexer e não pensar.
Não gastar energia à toa. Não alimentar pensamentos inúteis.

Chovia naquele dia.
Magro e frágil, Dennis tremia sob um casaco esfarrapado que alguém havia jogado fora, usando-o como abrigo contra a chuva.

Enquanto permanecia encolhido num canto do beco, viu uma mulher passar apressada. Corria, sem sequer notar sua presença.

Algo caiu do bolso do casaco dela. Dennis percebeu.
A mulher, porém, não.

Guiado pela luz difusa de um lampião, aproximou-se.
Era uma carteira.

Dentro, havia uma quantia absurda dinheiro que Dennis jamais tinha visto na vida.

Ele a segurou contra o peito e saiu do beco à procura da mulher.

Queria devolvê-la.

Pensou que, se ela perdesse aquilo, ficaria em apuros.
Assim como ele ficaria se perdesse aquele casaco velho.
Sem ele, como enfrentaria o frio e a chuva?

Era simples assim.

Correu bastante até encontrá-la. Ela já havia percebido a perda e procurava desesperada.

Com receio, estendeu a carteira.

A mulher a pegou, surpresa, examinando-a sob a chuva.

— É minha carteira.

Depois olhou para ele.

— Curioso… por que você pensou em me devolver?

Dennis abriu a boca, sem entender bem o que ela queria ouvir.
Sentia que precisava responder, mas fazia tanto tempo que não falava que a garganta se fechou. Nenhuma palavra saiu.

— Poderia ter ficado com ela. Se alguém é tola o bastante para deixar cair algo importante, merece ser roubada, não acha? Eu pensaria assim. Você não?

Dennis não entendia a pergunta.

Só pensou que ela teria problemas.

Talvez não fosse bondade pura talvez apenas não soubesse o valor real daquele dinheiro.

— Tanto faz. Venha comigo.

Ela era, apesar da juventude, chef de um restaurante renomado da capital.

Levou Dennis até lá e o sentou na mesa reservada à realeza e aos grandes nobres ainda coberto de sujeira.

Preparou rapidamente arroz frito e sopa.

Até então, Dennis nunca tinha chorado.
Na verdade, não sabia o que era chorar.

Não compreendia sua própria condição, muito menos o significado das lágrimas.

Mas, ao levar à boca aquele arroz quente, lágrimas começaram a cair sem que entendesse o motivo.

Chorando como um bebê, segurando a colher de forma desajeitada, devorou o prato.

Foi a primeira vez que sentiu algo que pudesse chamar de… delicioso.




Será que a chef está bem?

Ele havia saído brigado, levado pelo impulso.

Quando o restaurante estivesse estável, iria visitá-la e pedir desculpas.

O pensamento atravessou sua mente por um instante.




Enquanto isso, mercadores avaliavam a garota escravizada exposta à venda.

— Num bordel, renderia uma fortuna.
— Em poucos anos perde o valor.
— Dá para recuperar o investimento. Se pegar doença, vende pra um circo.

Dennis ouviu.

— Vamos, vamos! Uma peça dessas é rara! Quem dá mais?

— Trinta!
— Cinquenta!

Os lances subiam em sinais discretos com os dedos.

— Sessenta!
— Sessenta e três!
— Sessenta e seis!

— …Cem.

Foi Dennis quem disse.

Todos olharam para ele, braços cruzados ao fundo.

Droga. Fiz besteira.

Mas agora já estava feito.

— Cem do rapaz lá atrás! Mais alguém?

O mercador olhou em volta.

— Está com o dinheiro, não está?

Dennis tirou várias moedas de ouro do saco.

— Hahaha! Um jovem mais rico do que parece!

— Espere! Cento e cinquenta!

Dennis virou-se.

Um homem gordo, rosto brilhando de gordura.
Parecia que dava para extrair óleo da própria cara.

O dono da loja de bugigangas.

— Hehehe… Uma garota tão linda… vou levá-la para casa e cuidar muito bem…

Que tipo de pervertido é esse?

Dennis se repreendeu. Não podia julgar pela aparência.

Talvez fosse apenas… estranho.

— O Polbo apareceu…
— Se ele comprar, acabou. A garota não dura meses.

Droga. É pervertido mesmo.

— Duzentos!
— Trezentos… hehehe…
— Trezentos e cinquenta!
— Quatrocentos!
— Quatrocentos e cinquenta!!




Agora, sentado numa casa vazia recém-comprada, Dennis estava em choque.

Diante dele, a garota de cabelos prateados que vencera no leilão.

Contou as moedas várias vezes.

— Não faz sentido… Eu tinha tanto dinheiro… depois dos custos da loja e disso tudo… quase não sobrou nada…

Estava à beira das lágrimas.

— Seu nome?

— Não tenho mais.

— Claro que tem.

— Tinha. Perdi.

Dennis suspirou.

— Como devo chamar você?

— “Escrava” está bom.

— Não é isso.

Ela pensou.

— Se precisa de um nome… chame-me Atelier.

— Certo. Atelier, então.

Bateu palmas, meio desesperado.

— Bem… prazer.

— Por que me comprou?

— Só me lembrei de algo do passado.

Passou as mãos pelos cabelos curtos.

— Se acha que consegue fugir e viver sozinha, pode ir. Não me importo.

— Qual é o nome do meu dono?

— Não me chame assim. Sou Dennis.

— Dennis-sama.

— Não coloque nada depois.

— …Sama.

— Isso é ainda pior.

Ela olhou ao redor.

— O que devo fazer?

— Nada. Durma no segundo andar. Estou triste demais pra pensar. Minhas economias desapareceram.

De repente, o estômago dela roncou.

Dennis cruzou os braços.

— Aqui. Come.

Comprou ingredientes numa loja aberta e preparou arroz frito.

Mesmo numa casa vazia, tinha as habilidades “Chama” e “Purificação”.
Se quisesse, podia cozinhar nas profundezas de uma masmorra usando monstros como ingredientes.

Katie costumava chamá-lo de “Cozinha ambulante”, “A própria encarnação da culinária”, “Delinquente doméstico (Nv.99)”.

Colocou um prato diante dela.

Arroz, ovo, cebolinha, carne de Vritra e seus temperos pessoais.

Começou a comer em silêncio.

Atelier o imitou, levando uma colher hesitante à boca.

No instante seguinte, seus olhos se arregalaram.

Como se tivesse levado um choque.

Passou a comer com voracidade.

Dennis sentiu-se aliviado.

Ah. Então ela tem emoções.

Enquanto comia, percebeu que ela chorava.

Lágrimas grandes escorriam enquanto continuava a comer.

Ele não perguntou nada.

Se ela não queria falar, não precisava.

Comer bem e dormir bastante cura quase tudo.

E, mesmo que não cure…

Ainda assim é preciso comer.

Mesmo quando tudo parece perdido.

— …Está bom, Atelier?

— Nghf!? Nngh!? Gof—!?

— Ei! O que houve?!

— Cof! Gah—!?

— Você se engasgou feio! Não faça esses sons! Você era a personagem fria, lembra?! Está tudo bem?!