Capítulo 05 — Slime é mesmo algo para se caçar?
No terceiro dia, Falco tomou um café da manhã delicioso preparado por Shou e saiu para caçar de ótimo humor.
Seus olhos castanho-claros e o rosto sempre sujo de poeira contrastavam com o cabelo escuro e a expressão animada. Falco parecia mais o irmão japonês do vizinho do que alguém de outro mundo.
— Um dia você vai entender quando chegar à cidade… Talvez por estarmos no norte da Floresta Profunda, mas há muita gente com olhos e cabelo da mesma cor que os do Leon.
— Eu e o Falco vamos chamar atenção?
— Pessoas com a nossa coloração são comuns nas planícies. Minha mãe era caçadora e gostava de viajar. Eu nasci nas planícies. Então eu me destaco um pouco… mas nada muito incomum.
— E o pai do Falco…?
— Está nas planícies. Lá quase não há monstros, e minha mãe acabou ficando entediada e voltou logo depois. Duzentos anos é muito tempo é bom conviver com todo tipo de gente.
— Duzentos?! Você vai viver até os duzentos?!
— Hm? Claro… Você acha que alguém vira adulto aos vinte e só tem filhos até os cento e cinquenta? Talvez eu passe um pouco disso.
— Uau…
— Por isso homens e mulheres precisam aprender um trabalho sério, algo que possam exercer por muito tempo.
— Sim!
— Bem, acho que está na hora de começarmos o treino de espada.
— Hein, Falco…
Eu já tinha dito que não treinaria com espada. Estava prestes a repetir isso quando Falco completou:
— Primeiro você precisa derrotar pelo menos um slime, certo?
Ele falou como se fosse óbvio. Mas que absurdo!
— Quer dizer… eu consigo derrotar.
— Foi você quem disse. Estou ansioso para ver.
Droga. Não devia ter falado aquilo.
Pensando bem, se eu não conseguisse derrotar um slime, talvez realmente não devesse treinar com espada. Mas também não queria que o esforço diligente dos últimos dois dias fosse em vão.
Depois de limpar a cabana, Shou pegou um balde com água, enfiou dois palitinhos finos no bolso do casaco de Falco, segurou um galho comprido e prendeu a adaga ainda na bainha a uma tira amarrada como se fosse um obi.
— Estou parecendo alguém indo pescar…
Resmungando sozinha, saiu para procurar slimes embora nem precisasse procurar. Eles estavam por toda parte.
Toc. Cutucou o slime com o galho.
Sshhh. Ele cuspiu ácido.
Toc, toc. Mais duas investidas à distância.
Então, aproximando-se com coragem, avançou e cortou o slime com a adaga.
A criatura perdeu a forma silenciosamente, até que restou apenas uma pequena pedra mágica azul-clara.
Com os palitinhos, Shou a pegou e ergueu contra a luz do sol.
— Que bonito…
A cada dez pedras coletadas, ela trocava a água do balde. Ao meio-dia, já tinha trinta.
Estou entediada. Ainda há slimes demais.
À tarde, verificou os mantimentos, preparou sopa e fatiou carne seca e pão. Aos dez anos, já não era tão pequena mas ainda não tinha a destreza de um adulto. Descascar e cortar batatas e legumes levava tempo.
Mesmo assim, podia cozinhar com calma. Quando se lembrava da vida agitada que tivera antes, isso a deixava genuinamente feliz.
— Cheguei! Shou!
— Bem-vindo, Falco!
Falco sempre a erguia no ar. Apesar da aparência de alguém na casa dos vinte, ele era um caçador robusto. Dizia que crianças devem ser levantadas, e como Shou ainda não conhecia o suficiente daquele mundo para contestar, aceitava ser erguida como se fosse apenas uma menina.
— E então? Conseguiu derrotar algum slime hoje?
— Sim!
— Oh! Mesmo? Não se machucou, né? Levou poção com você?
Ah. Esqueci.
— Se você se ferir, a poção ajuda a curar rápido. Um caçador sempre precisa carregar uma.
Não estou tentando virar caçadora… Mas vou tentar não esquecer. Não quero ficar com cicatrizes.
— Olha isso!
Ela mostrou o balde.
— Você… isso é…
— Parei nos trinta.
— Entendo… você conseguiu…
Falco parecia… decepcionado?
— Quando Leon vier, posso tirar um dia para ver como você caça slimes. Ei, por que está franzindo o nariz?
Porque você parece um pescador. Nada estiloso.
— Como seu responsável, tenho o direito não, o dever de acompanhar.
Ele disse que é dever! Está se divertindo, com certeza.
— Bem, os slimes estão por toda parte. Trinta por dia é um bom número.
— O quê? Eu fico entediada.
— Mesmo entediada, você precisa continuar.
— Sim…
E assim, depois de quatro dias convivendo com slimes, chegou o dia de descanso.
— Vamos! Caçar slimes!
Falco estava estranhamente animado.
Sem dizer nada, Shou suspirou e foi para o quarto.
— Ei? Por que o quarto?
Ela voltou com um pedaço de corda, que amarrou como um obi firme na cintura. Encheu o balde com água, prendeu os dois palitos e a adaga ao cinto e encarou Falco em silêncio.
Shou falava pouco. Expressava-se com os olhos.
Significava: Estou pronta. Vamos.
Do lado de fora, pegou o galho comprido apoiado na parede e lançou outro olhar significativo.
— Você… está parecendo… uma pescadora… haha Falco não conseguiu segurar a risada.
No instante seguinte, algo estalou contra sua perna.
— Shou! Perigoso! Não me bata com o galho! Ai! Haha! Desculpa! Ai! Boa postura de espada, Shou! Boa caçadora! Ai!
O ataque era preciso.
Ela realmente tinha talento para a espada.
Falco demorou um pouco para acalmá-la. Ele a provocava demais não era boa ideia.
Ainda assim, não conseguia esconder a surpresa.
Ele próprio podia derrotar dezenas de slimes sem dificuldade. Mas, quando era criança, nunca fora tão eficiente. Competia com os amigos para ver quem aguentava mais ataques de ácido. Era divertido brincar na margem da segurança.
Shou não brincava.
Ela agia com cálculo.
Nem usava magia.
Pegava a pedra mágica com aqueles palitinhos estranhos e a lançava no balde. Fim.
É verdade que perto da cidade não há tantos slimes… Mas, desse jeito, daria para viver apenas caçando slimes. Ela não precisa de mim para… não, não, ninguém vive só de slimes.
— Falco, tem alguém além do Leon vindo para cá.
A visão de Shou já estava completamente recuperada; ela enxergava longe. Falco, como caçador, também tinha boa visão.
— É verdade… Ei, mas o que o monge…
— O que acha? Por que está tão nervoso?
— Não fiz nada errado, certo? Está tudo bem… vai dar tudo certo.
— Falco.
— O quê, Shou?
— O que houve?
— É o monge. A autoridade máxima da Igreja. Acho que veio ver você.
— A mim?
— Afinal, você consegue usar magia de cura.
— Ohh…
Finalmente.
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