— Quem é? Alguém está chorando.
Na escuridão absoluta, num vazio completamente negro, ecoam gemidos que soam como choro. …Sou eu.
— Oh, Stale, como voltou rápido!
Alguém se aproxima. É uma mulher com o rosto negro, como se tivesse sido pintado de tinta; suas feições são impossíveis de distinguir.
Ah, claro. Eu voltei depois de matar minha mãe por ordem dela.
Mamãe ficou feliz em me ver, mas também muito surpresa. Quando eu gritei desesperado:
— Fuja!
Ela congelou, sem entender o que estava acontecendo e caiu sob a lâmina que eu empunhava.
Suas últimas palavras.
— Stale… por quê?
— ainda ressoam nos meus ouvidos. Ela jazia no chão, sangrando, chorando.
Eu não consegui sequer olhar para o rosto dela. Deixei-a ali, caída no chão. Eu… eu… eu… eu…!
— Você voltou sem ser notado, exatamente como eu ordenei. Muito bem, muito bem.
A mão dela acaricia minha cabeça com falsa ternura, e isso me causa náusea. A satisfação em sua voz desperta em mim um impulso assassino. Rosno como uma fera e avanço com a mesma faca que matou minha mãe, mirando sua garganta.
Mas, no último instante, minha mão para. Não há hesitação e ainda assim, meu corpo não obedece.
— Ahaha, que tolo. Você acha mesmo que pode matar sua senhora, com quem firmou um contrato de submissão?
Ela ri. O som me revira o estômago.
— Por quê?! Por que me fez matar minha própria mãe?! O que ela fez a você?! O que eu fiz?!
Eu grito com todas as forças, mas é como se minhas palavras jamais a alcançassem.
— Nada. Ora, simplesmente porque é divertido! Ah, meu querido escravo Stale… você tem tornado meus dias tão agradáveis ultimamente!
Ela sorri. Não é o sorriso inocente de uma criança é um sorriso cruel.
— Então me mate! Se é tão divertido me torturar, acabe logo com isso!
Neste mundo sem minha mãe, não me resta mais nada ao qual me apegar.
— Hein? Não foi você quem prometeu que me mataria quando fez o contrato? E agora quer morrer? Deseja se juntar à sua mamãe no além?
A lâmina treme contra sua garganta. Bastaria um pouco mais de força.
— Então eu ordeno: está proibido de tirar a própria vida. E também está proibido de contar a qualquer pessoa o que aconteceu hoje… ou sobre esta ordem.
— O quê…
Ela não me permite nem morrer.
— Ah, que expressão maravilhosa! Mantenha-a por um tempo. Bem, até amanhã, Stale. Não se esqueça de lavar esse sangue imundo da camponesa antes da celebração de amanhã.
Ela ri. O riso mistura-se à respiração quente.
Eu desabo de joelhos e golpeio o chão com os punhos. Uivo, esquecendo que sou humano. Se ao menos pudesse cravar a faca em mim mesmo e pôr fim a tudo…
Mas não posso mais morrer. Recebi uma ordem.
Eu não a perdoarei.
Aquela mulher… aquele demônio em forma humana.
Um dia, vingarei minha mãe.
É apenas por isso que continuo vivo.
— Stale-sama, bom dia.
O som das cortinas sendo abertas me desperta. A criada veio me acordar.
— Bom dia…
Respondo com esforço, percebendo que já é manhã. Afundo novamente sob as cobertas, evitando a luz intensa da janela, e esfrego os olhos.
…O que foi aquilo? Eu estava sonhando…
Mas não consigo lembrar do quê. A criada comenta que eu parecia inquieto, que chorava durante o sono. Não sei se foi um sonho bom ou ruim. Apenas as lágrimas mornas em meus olhos indicam que não era algo alegre.
Depois que perdi minha mãe, não chorei nem mesmo nos sonhos. E, ainda assim, agora sinto as lágrimas em meu rosto ao me levantar da cama.
Embora… fora dos sonhos, houve momentos em que chorei.
Meu rosto arde ao lembrar dos acontecimentos recentes envolvendo Pride. As recordações me envergonham, mas ao mesmo tempo aquecem meu coração.
Enquanto as criadas me ajudam a vestir, verifico a agenda do dia.
Ah, claro… hoje…
— Até amanhã, todos os preparativos para a celebração do aniversário de Tiara-sama estarão concluídos.
Tiara a irmã mais nova de Pride e minha futura meia-irmã é a segunda princesa deste reino.
Ainda não a conheci pessoalmente, mas seu aniversário e apresentação oficial ocorrerão amanhã.
— Obrigado. Pride está ansiosa por isso… e eu também aguardo com expectativa.
Sorrio, e a criada retribui com delicadeza.
Tiara Royal Ivy a segunda princesa deste reino. Se Pride a espera com tanto entusiasmo, então eu também ficarei feliz em conhecê-la. Ouvi dizer que, desde pequena, ela teve saúde frágil. Se for assim, devo protegê-la. Mamãe, papai, Pride e todo o povo aguardam seu aniversário com alegria.
Termino de me arrumar e deixo o quarto, caminhando pelo longo corredor até alcançar a escadaria.
— Bom dia, Stale.
A voz vem de cima.
É a pessoa que mais deve ser amada neste reino. E a mais importante para mim.
— Bom dia, Pride.
Não me engano.
Meu único desejo é a felicidade de Pride. Apenas a felicidade dela.
Amanhã é o aniversário de Tiara-sama. E, nesse mesmo dia, a rainha nossa mãe encontrará Pride, que oficialmente me acolheu como seu irmão adotivo.
Para mim, só há uma coisa que importa.
Tudo é por Pride.
Sim… apenas por ela.
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