Capítulo 04 : Preparativos para a Abertura e a Escrava Exilada (Parte Final)
Quando Dennis ainda era pequeno.
Vivendo nas sombras dos becos que se escondiam atrás do brilho da capital, sobrevivendo de restos e ratos.
Naquelas noites, o mais importante era não se mexer e não pensar.
Não gastar energia à toa. Não alimentar pensamentos inúteis.
Chovia naquele dia.
Magro e frágil, Dennis tremia sob um casaco esfarrapado que alguém havia jogado fora, usando-o como abrigo contra a chuva.
Enquanto permanecia encolhido num canto do beco, viu uma mulher passar apressada. Corria, sem sequer notar sua presença.
Algo caiu do bolso do casaco dela. Dennis percebeu.
A mulher, porém, não.
Guiado pela luz difusa de um lampião, aproximou-se.
Era uma carteira.
Dentro, havia uma quantia absurda dinheiro que Dennis jamais tinha visto na vida.
Ele a segurou contra o peito e saiu do beco à procura da mulher.
Queria devolvê-la.
Pensou que, se ela perdesse aquilo, ficaria em apuros.
Assim como ele ficaria se perdesse aquele casaco velho.
Sem ele, como enfrentaria o frio e a chuva?
Era simples assim.
Correu bastante até encontrá-la. Ela já havia percebido a perda e procurava desesperada.
Com receio, estendeu a carteira.
A mulher a pegou, surpresa, examinando-a sob a chuva.
— É minha carteira.
Depois olhou para ele.
— Curioso… por que você pensou em me devolver?
Dennis abriu a boca, sem entender bem o que ela queria ouvir.
Sentia que precisava responder, mas fazia tanto tempo que não falava que a garganta se fechou. Nenhuma palavra saiu.
— Poderia ter ficado com ela. Se alguém é tola o bastante para deixar cair algo importante, merece ser roubada, não acha? Eu pensaria assim. Você não?
Dennis não entendia a pergunta.
Só pensou que ela teria problemas.
Talvez não fosse bondade pura talvez apenas não soubesse o valor real daquele dinheiro.
— Tanto faz. Venha comigo.
Ela era, apesar da juventude, chef de um restaurante renomado da capital.
Levou Dennis até lá e o sentou na mesa reservada à realeza e aos grandes nobres ainda coberto de sujeira.
Preparou rapidamente arroz frito e sopa.
Até então, Dennis nunca tinha chorado.
Na verdade, não sabia o que era chorar.
Não compreendia sua própria condição, muito menos o significado das lágrimas.
Mas, ao levar à boca aquele arroz quente, lágrimas começaram a cair sem que entendesse o motivo.
Chorando como um bebê, segurando a colher de forma desajeitada, devorou o prato.
Foi a primeira vez que sentiu algo que pudesse chamar de… delicioso.
Será que a chef está bem?
Ele havia saído brigado, levado pelo impulso.
Quando o restaurante estivesse estável, iria visitá-la e pedir desculpas.
O pensamento atravessou sua mente por um instante.
Enquanto isso, mercadores avaliavam a garota escravizada exposta à venda.
— Num bordel, renderia uma fortuna.
— Em poucos anos perde o valor.
— Dá para recuperar o investimento. Se pegar doença, vende pra um circo.
Dennis ouviu.
— Vamos, vamos! Uma peça dessas é rara! Quem dá mais?
— Trinta!
— Cinquenta!
Os lances subiam em sinais discretos com os dedos.
— Sessenta!
— Sessenta e três!
— Sessenta e seis!
— …Cem.
Foi Dennis quem disse.
Todos olharam para ele, braços cruzados ao fundo.
Droga. Fiz besteira.
Mas agora já estava feito.
— Cem do rapaz lá atrás! Mais alguém?
O mercador olhou em volta.
— Está com o dinheiro, não está?
Dennis tirou várias moedas de ouro do saco.
— Hahaha! Um jovem mais rico do que parece!
— Espere! Cento e cinquenta!
Dennis virou-se.
Um homem gordo, rosto brilhando de gordura.
Parecia que dava para extrair óleo da própria cara.
O dono da loja de bugigangas.
— Hehehe… Uma garota tão linda… vou levá-la para casa e cuidar muito bem…
Que tipo de pervertido é esse?
Dennis se repreendeu. Não podia julgar pela aparência.
Talvez fosse apenas… estranho.
— O Polbo apareceu…
— Se ele comprar, acabou. A garota não dura meses.
Droga. É pervertido mesmo.
— Duzentos!
— Trezentos… hehehe…
— Trezentos e cinquenta!
— Quatrocentos!
— Quatrocentos e cinquenta!!
Agora, sentado numa casa vazia recém-comprada, Dennis estava em choque.
Diante dele, a garota de cabelos prateados que vencera no leilão.
Contou as moedas várias vezes.
— Não faz sentido… Eu tinha tanto dinheiro… depois dos custos da loja e disso tudo… quase não sobrou nada…
Estava à beira das lágrimas.
— Seu nome?
— Não tenho mais.
— Claro que tem.
— Tinha. Perdi.
Dennis suspirou.
— Como devo chamar você?
— “Escrava” está bom.
— Não é isso.
Ela pensou.
— Se precisa de um nome… chame-me Atelier.
— Certo. Atelier, então.
Bateu palmas, meio desesperado.
— Bem… prazer.
— Por que me comprou?
— Só me lembrei de algo do passado.
Passou as mãos pelos cabelos curtos.
— Se acha que consegue fugir e viver sozinha, pode ir. Não me importo.
— Qual é o nome do meu dono?
— Não me chame assim. Sou Dennis.
— Dennis-sama.
— Não coloque nada depois.
— …Sama.
— Isso é ainda pior.
Ela olhou ao redor.
— O que devo fazer?
— Nada. Durma no segundo andar. Estou triste demais pra pensar. Minhas economias desapareceram.
De repente, o estômago dela roncou.
Dennis cruzou os braços.
— Aqui. Come.
Comprou ingredientes numa loja aberta e preparou arroz frito.
Mesmo numa casa vazia, tinha as habilidades “Chama” e “Purificação”.
Se quisesse, podia cozinhar nas profundezas de uma masmorra usando monstros como ingredientes.
Katie costumava chamá-lo de “Cozinha ambulante”, “A própria encarnação da culinária”, “Delinquente doméstico (Nv.99)”.
Colocou um prato diante dela.
Arroz, ovo, cebolinha, carne de Vritra e seus temperos pessoais.
Começou a comer em silêncio.
Atelier o imitou, levando uma colher hesitante à boca.
No instante seguinte, seus olhos se arregalaram.
Como se tivesse levado um choque.
Passou a comer com voracidade.
Dennis sentiu-se aliviado.
Ah. Então ela tem emoções.
Enquanto comia, percebeu que ela chorava.
Lágrimas grandes escorriam enquanto continuava a comer.
Ele não perguntou nada.
Se ela não queria falar, não precisava.
Comer bem e dormir bastante cura quase tudo.
E, mesmo que não cure…
Ainda assim é preciso comer.
Mesmo quando tudo parece perdido.
— …Está bom, Atelier?
— Nghf!? Nngh!? Gof—!?
— Ei! O que houve?!
— Cof! Gah—!?
— Você se engasgou feio! Não faça esses sons! Você era a personagem fria, lembra?! Está tudo bem?!
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