2 de mar. de 2026

Gangsta - Capítulo 03

 Capítulo 03

Para que a história faça sentido, é preciso primeiro recontar os acontecimentos que ocorreram dois dias após aquela noite mencionada anteriormente.

Ao entardecer, Worick e Nicolas foram atacados por um grupo de homens de terno preto. Embora os Benriya já tivessem passado por algo semelhante dias antes, era preciso admitir que, nesta cidade, a especialidade dos homens de preto não era negócios era violência. O que, francamente, não surpreendia ninguém.

Os dois devolveram o ataque na mesma moeda. Mesmo que os Benriya não usassem gravatas, sua especialidade também era a violência. E, se dependesse de Worick, eles eram até mais elegantes nisso porque sabiam usar a cabeça.

Os homens estavam armados. Sabiam exatamente o que significava puxar um gatilho não havia hesitação. Por isso, os Faz-Tudo não tiveram escolha senão matá-los.

Simples assim.

Exceto pelo problema óbvio: deixar vários corpos espalhados por aí, mesmo em um beco fedido, não era opção. Worick podia não parecer, mas se considerava um simpatizante da causa da “limpeza urbana”. Além disso, nesta cidade vivia um velho cão com faro apurado para pólvora e sangue.

Cinco minutos após o ataque e pouco mais de dois depois que tudo terminou um velho policial grisalho apareceu em um sedã antiquado.

— Vocês de novo, malditos moleques Benriya! Quantas vezes tenho que repetir que não façam bagunça sem permissão?!

Era Chad Atkins, inspetor da Primeira Divisão do Departamento de Investigações Criminais da Polícia Central. Ele conhecia Worick e Nicolas desde que chegaram a Ergastulum.

Mais de cinquenta anos. Vinte deles em serviço ativo, no mínimo. Um policial sujo exemplar, que sabia sobreviver naquela cidade.

E que nunca deixara de implicar com eles.



Chad analisou os corpos.

— E tinham que matar justo esses caras problemáticos, né? A polícia não é lixeira da cidade!

Nicolas fez um gesto irritado em língua de sinais.

“Até a lixeira faz trabalho melhor que ele.”

Chad virou-se e acertou-lhe um soco.

— Cala a boca, pirralho!



Descobriu-se então que os mortos pertenciam aos remanescentes da Família Lombardi.

Não uma grande máfia tradicional, mas um grupo jovem envolvido com algo chamado “dinamite”: vendiam Twilights envenenados, à beira da morte, junto com doses concentradas de Celebrer apenas o tipo estimulante.

A ideia era simples e monstruosa: dopar um Twilight condenado com overdose do estimulante e enviá-lo como arma viva contra o inimigo. Quando o efeito passasse, ele morreria.

Uma bomba humana.



No dia seguinte, as notícias confirmaram: além da Família Lombardi, membros importantes de outras famílias também haviam sido mortos.

Alguém estava caçando a máfia.

E Daniel Monroe queria ver Worick e Nicolas.


O Jantar com Daniel Monroe

O encontro aconteceu num luxuoso restaurante italiano pertencente ao próprio Monroe.

Ele era um dos Quatro Padrinhos pilares que sustentavam o frágil equilíbrio de Ergastulum.

Monroe comia pizza como se estivesse numa conversa casual.

— Estão falando disso na TV agora. Quatro mortos no último fim de semana.

Ataques sistemáticos. Mesmo padrão da aniquilação dos Lombardi.

Worick negou envolvimento.

Monroe disse saber que eles eram neutros.

Mas deixou claro: o que importa são fatos.

— Ataques contra nós não trazem nada de bom. Se alguém faz isso mesmo assim… deve haver algo a ganhar.

A tensão era invisível, mas pesada.

Nicolas, quebrando o costume, falou em voz alta:

— Quais são suas condições?

Monroe sorriu como quem acaricia um cão fiel.

— Carne barata sempre terá gosto ruim, não importa como seja preparada.

O recado estava dado.



Dario

Após o jantar, Worick ligou para Dario e o convidou para beber.

Desde que os assassinatos começaram, o nome de Dario lhe rondava a mente.

Recém-chegado à cidade. Estranho. Imprevisível.

Twilights seguem três regras fundamentais. A principal: não desequilibrar Ergastulum.

Caçar mafiosos era estupidez suicida.

Mas Dario era novo ali.

Talvez não entendesse o “bom senso” da cidade.



Beberam juntos num bar espanhol barato.

Dario falava demais, ria alto, esquecia tudo menos o que considerava importante.

Falou do seu Fiat roxo berrante, com um cachorro pintado no capô. Falou de uma garota que elogiara o carro.

Falou de memórias.

E então, quando saíam sob chuva fina, um sedã preto bloqueou a rua.

Cinco pessoas de terno.

Armas sacadas.


O Ataque

Worick reagiu e se escondeu atrás de um muro.

Dario, ainda bêbado ou talvez não  caminhou na direção dos atiradores.

Levou um tiro na coxa.

Worick tentou salvá-lo.

Mas acabou cercado.

Golpeado.

Apagou.


O Cativeiro

Acordou num galpão abandonado.

Amarrado.

Três capangas à sua volta.

Uma mulher cujo ombro ele atingira queria vingança.

Ela o acusava de ser um dos assassinos da máfia.

Preparava-se para disparar seis tiros “acidentais”.

Então—

Um estrondo.

A porta de metal foi arrebentada.

O Fiat roxo invadiu o galpão como um aríete.

O cachorro pintado parecia sorrir ainda mais largo.

Era Dario.

Ensanguentado. Determinado.

Cortou as amarras de Worick.

— Você salvou Johann. Agora é minha vez.

Trocaram tiros.

A mulher caiu.

O carro ficou destruído.

Dario desabou no chão.

— Me leva pro hospital. Tô todo ferrado.

Worick acendeu um cigarro.

Dario também.

O motor do Fiat soltava fumaça preta.

— Uma pena seu carro — disse Worick.

Dario olhou para o cachorro pintado.

— Já esqueci dele.




Worick fechou os olhos por um instante, como numa breve oração silenciosa ao carro roxo.

Depois perguntou:

— Já leu Nietzsche?

— Nietzsche? É atriz pornô?

— Isso mesmo. Muito estimulante.

Talvez os assassinos da máfia fossem terroristas.

Ou talvez fossem apenas idiotas matando quem não gostavam.

— Pra mim, pin-up boa tem que ter bunda grande — murmurou Dario.

— Não faço ideia do tamanho da do Nietzsche — respondeu Worick.

A cinza do cigarro caiu no rosto de Dario.

Ele nem se mexeu.

Nota:
Bacalada = bacalhau seco (stockfish).

 

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