24 de fev. de 2026

Não vou fazer algo como romper nosso noivado - Capítulo 19

Capítulo 19: Apresentação 
 
Hoje, finalmente, decidimos dar início concreto à produção em larga escala daquele álcool.
O diretor do hospital e eu visitamos a Associação dos Produtores de Bebidas.

Serea foi até o orfanato apresentar um teatrinho ilustrado para as crianças eu a deixei lá mais cedo.

— Ora, ora… Um príncipe ainda menor de idade vindo inspecionar uma destilaria? A que devemos a honra?

O mestre da associação ouviu nossa proposta.

Expliquei: álcool mais forte isto é, destilado para desinfecção. Testamos no hospital e os resultados foram imediatos. Especialmente em ferimentos: o pós-operatório melhorou drasticamente, o tempo de recuperação diminuiu de forma significativa. Casos de infecção e formação de pus caíram pela metade. Até o diretor ficou surpreso.

— E então… entrando num assunto mais delicado — continuei —, caso haja alguma destilaria em dificuldades, prestes a fechar as portas, gostaríamos que nos apresentasse. Não para produzir bebida comum, mas álcool medicinal. Um local com equipamento de destilação.

— Nesse caso, a Destilaria Balkan seria adequada. Tentaram produzir o álcool mais forte do reino, um destilado de batata. Ficou forte demais. Não vendeu nada. Estão atolados.

— Que tipo de espírito aventureiro é esse…?

— Todo artesão quer ser o melhor. Criar algo supremo, mesmo que não dê lucro. Mas exageraram.

Exageraram na direção errada, ao meu ver. Deveriam competir em sabor, não em potência. Mas, para o meu objetivo, era perfeito.

Fomos até a Destilaria Balkan.

— Nunca conseguimos superar as grandes casas em qualidade. Então pensei: “Se é para perder no sabor, que seja o mais forte e barato possível!” — riu amargamente o proprietário, o senhor Balkan. — Mas fracassamos. Nem os que só querem embriagar-se quiseram comprar.

O cheiro do lugar era intenso. Fiquei imaginando do que exatamente faziam aquele álcool.

— Quantas garrafas sobraram?
— Seiscentas.
— O Palácio poderia comprá-las?
— O quê?! Seria uma bênção… mas por que a família real compraria bebida barata de pobre?
— Não é para beber. É para o hospital.

Pedi ao diretor que explicasse.

Ele falou sobre a eficácia do álcool na desinfecção, a melhora na evolução dos ferimentos, a necessidade crescente de álcool de alta pureza para uso médico.

— Isso é verdade mesmo?! — Balkan arregalou os olhos.

— Já ouviu dizer que, no campo de batalha, lavar ferimentos com bebida forte acelera a cura?
— Já… mas achei que fosse superstição.
— Precisamos apenas de quantidade. Gostaria que redestilasse essas seiscentas garrafas para elevar ainda mais a pureza do álcool.
— Entendo…
— O sabor não importa. Pelo contrário, sabor e aroma só atrapalham. Idealmente, deveria ser incolor e inodoro.

Balkan coçou o queixo.

— Para tirar cheiro, usa-se carvão. Filtrar com carvão reduz bastante o odor. Se exagerar, até tira o gosto.
— Excelente. Vamos exagerar. De que é feito esse lote?
— Batata, batata-doce e cevada.
— Em geral, o álcool vem de quê?
— De qualquer coisa rica em amido ou açúcar.

Pensei um pouco.

— Não vamos vender como bebida. Se pudermos usar vegetais descartados, frutas impróprias para venda, bagaço…
— Há algo que nós, destiladores, juramos nunca usar — interrompeu.
— O quê?
— Bagaço de beterraba açucareira. Sobra em abundância depois da extração do açúcar.

— Então vamos testar!

Ele fez uma expressão de horror.

— Só se o Palácio financiar tudo. Se eu fizer isso por conta própria, fecho as portas e ainda sou expulso da associação.
— Ainda sou príncipe — respondi. — Pedirei autorização ao rei e aos ministros.
— Quer que eu transforme minha destilaria numa fábrica exclusiva de álcool medicinal?
— Vamos criar uma divisão separada. O Estado investe, compra ações, cria um centro experimental de álcool sob gestão pública. Sua destilaria pode se reerguer. O que acha?
— Se for assim… não tenho do que reclamar!

Decidimos levar o tema ao Conselho Real.

No caminho de volta, passei pelo orfanato. Serea estava apresentando seu teatrinho. Acho que era “A Entrega do Pequeno Hayabusa”.

Aproximei-me em silêncio e espreitei pela porta.

— …E assim, ao reentrar na atmosfera, Hayabusa se consumiu em chamas. Mas uma das duas estrelas cadentes não desapareceu. A cápsula de retorno, lançada a doze quilômetros por segundo, protegida por fibra de carbono, resistiu a mais de dez mil graus de calor gerado pela fricção e trouxe até nós as amostras coletadas do asteroide Itokawa…

Desculpa… eu não entendi uma palavra.

— Após sete anos e seis bilhões de quilômetros de viagem, Hayabusa voltou à Terra. Antes de esgotar suas forças, recebeu sua última missão: fotografar seu planeta natal. A imagem chegou até nós borrada como lágrimas… mas ele conseguiu ver a Terra uma última vez…

Por que as crianças estão chorando tanto com isso?!

Voltamos ao palácio. Fui falar diretamente com Sua Majestade.

— Pode afirmar com segurança que houve resultados?
— Sim! Temos dados.
— Muito bem. Autorizo a compra das seiscentas garrafas e a redestilação. Aperfeiçoe completamente o método de desinfecção com álcool.

— Sim!

Já era um enorme avanço.

— Mas é o limite do que posso autorizar agora. A transformação em empreendimento estatal deverá ser debatida no Conselho em três dias.
— Agradeço imensamente.
— Contudo, quem fará a proposta será você.
— Eu?!
— Sim, Shin. Compareça ao Conselho e convença os ministros.

Era uma responsabilidade gigantesca.

— Já é casado, não? Trabalhe o suficiente para sustentar sua esposa. Não o tratarei como criança.
— …Entendido.

Voltei com uma pilha de relatórios. Fiquei horas pensando: como convencer ministros adultos? Como obter autorização para investir recursos do Estado?

— …Talvez eu devesse copiar a Serea.
— Copiar?
— Usar pranchas ilustradas, como um teatrinho, e ir mostrando os dados.
— Ótima ideia! Eu ajudo desenhando!

Assim começamos.

Passei no hospital recolhendo estatísticas. Fui à destilaria aprender sobre fermentação e destilação. Anotei tudo. Serea desenhava cenas do tratamento médico, esquemas do alambique.

Entre estudos, treinos e aulas de dança, trabalhávamos até tarde da noite.

Serea ficou hospedada no palácio para ajudar. Espalhávamos papéis, lápis de cera e relatórios pelo chão.

Certa manhã, a chefe das criadas nos encontrou dormindo enrolados em cobertores sobre o tapete.

— Se vão dormir, ao menos usem a cama!

…Espera, isso quer dizer que podemos?
 
 Anterior [■] Menu inicial  [■] 
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário