Capítulo 19: Apresentação
Hoje, finalmente, decidimos dar início concreto à produção em larga escala daquele álcool.
O diretor do hospital e eu visitamos a Associação dos Produtores de Bebidas.
Serea foi até o orfanato apresentar um teatrinho ilustrado para as crianças eu a deixei lá mais cedo.
— Ora, ora… Um príncipe ainda menor de idade vindo inspecionar uma destilaria? A que devemos a honra?
O mestre da associação ouviu nossa proposta.
Expliquei: álcool mais forte isto é, destilado para desinfecção. Testamos no hospital e os resultados foram imediatos. Especialmente em ferimentos: o pós-operatório melhorou drasticamente, o tempo de recuperação diminuiu de forma significativa. Casos de infecção e formação de pus caíram pela metade. Até o diretor ficou surpreso.
— E então… entrando num assunto mais delicado — continuei —, caso haja alguma destilaria em dificuldades, prestes a fechar as portas, gostaríamos que nos apresentasse. Não para produzir bebida comum, mas álcool medicinal. Um local com equipamento de destilação.
— Nesse caso, a Destilaria Balkan seria adequada. Tentaram produzir o álcool mais forte do reino, um destilado de batata. Ficou forte demais. Não vendeu nada. Estão atolados.
— Que tipo de espírito aventureiro é esse…?
— Todo artesão quer ser o melhor. Criar algo supremo, mesmo que não dê lucro. Mas exageraram.
Exageraram na direção errada, ao meu ver. Deveriam competir em sabor, não em potência. Mas, para o meu objetivo, era perfeito.
Fomos até a Destilaria Balkan.
— Nunca conseguimos superar as grandes casas em qualidade. Então pensei: “Se é para perder no sabor, que seja o mais forte e barato possível!” — riu amargamente o proprietário, o senhor Balkan. — Mas fracassamos. Nem os que só querem embriagar-se quiseram comprar.
O cheiro do lugar era intenso. Fiquei imaginando do que exatamente faziam aquele álcool.
— Quantas garrafas sobraram?
— Seiscentas.
— O Palácio poderia comprá-las?
— O quê?! Seria uma bênção… mas por que a família real compraria bebida barata de pobre?
— Não é para beber. É para o hospital.
Pedi ao diretor que explicasse.
Ele falou sobre a eficácia do álcool na desinfecção, a melhora na evolução dos ferimentos, a necessidade crescente de álcool de alta pureza para uso médico.
— Isso é verdade mesmo?! — Balkan arregalou os olhos.
— Já ouviu dizer que, no campo de batalha, lavar ferimentos com bebida forte acelera a cura?
— Já… mas achei que fosse superstição.
— Precisamos apenas de quantidade. Gostaria que redestilasse essas seiscentas garrafas para elevar ainda mais a pureza do álcool.
— Entendo…
— O sabor não importa. Pelo contrário, sabor e aroma só atrapalham. Idealmente, deveria ser incolor e inodoro.
Balkan coçou o queixo.
— Para tirar cheiro, usa-se carvão. Filtrar com carvão reduz bastante o odor. Se exagerar, até tira o gosto.
— Excelente. Vamos exagerar. De que é feito esse lote?
— Batata, batata-doce e cevada.
— Em geral, o álcool vem de quê?
— De qualquer coisa rica em amido ou açúcar.
Pensei um pouco.
— Não vamos vender como bebida. Se pudermos usar vegetais descartados, frutas impróprias para venda, bagaço…
— Há algo que nós, destiladores, juramos nunca usar — interrompeu.
— O quê?
— Bagaço de beterraba açucareira. Sobra em abundância depois da extração do açúcar.
— Então vamos testar!
Ele fez uma expressão de horror.
— Só se o Palácio financiar tudo. Se eu fizer isso por conta própria, fecho as portas e ainda sou expulso da associação.
— Ainda sou príncipe — respondi. — Pedirei autorização ao rei e aos ministros.
— Quer que eu transforme minha destilaria numa fábrica exclusiva de álcool medicinal?
— Vamos criar uma divisão separada. O Estado investe, compra ações, cria um centro experimental de álcool sob gestão pública. Sua destilaria pode se reerguer. O que acha?
— Se for assim… não tenho do que reclamar!
Decidimos levar o tema ao Conselho Real.
No caminho de volta, passei pelo orfanato. Serea estava apresentando seu teatrinho. Acho que era “A Entrega do Pequeno Hayabusa”.
Aproximei-me em silêncio e espreitei pela porta.
— …E assim, ao reentrar na atmosfera, Hayabusa se consumiu em chamas. Mas uma das duas estrelas cadentes não desapareceu. A cápsula de retorno, lançada a doze quilômetros por segundo, protegida por fibra de carbono, resistiu a mais de dez mil graus de calor gerado pela fricção e trouxe até nós as amostras coletadas do asteroide Itokawa…
Desculpa… eu não entendi uma palavra.
— Após sete anos e seis bilhões de quilômetros de viagem, Hayabusa voltou à Terra. Antes de esgotar suas forças, recebeu sua última missão: fotografar seu planeta natal. A imagem chegou até nós borrada como lágrimas… mas ele conseguiu ver a Terra uma última vez…
Por que as crianças estão chorando tanto com isso?!
Voltamos ao palácio. Fui falar diretamente com Sua Majestade.
— Pode afirmar com segurança que houve resultados?
— Sim! Temos dados.
— Muito bem. Autorizo a compra das seiscentas garrafas e a redestilação. Aperfeiçoe completamente o método de desinfecção com álcool.
— Sim!
Já era um enorme avanço.
— Mas é o limite do que posso autorizar agora. A transformação em empreendimento estatal deverá ser debatida no Conselho em três dias.
— Agradeço imensamente.
— Contudo, quem fará a proposta será você.
— Eu?!
— Sim, Shin. Compareça ao Conselho e convença os ministros.
Era uma responsabilidade gigantesca.
— Já é casado, não? Trabalhe o suficiente para sustentar sua esposa. Não o tratarei como criança.
— …Entendido.
Voltei com uma pilha de relatórios. Fiquei horas pensando: como convencer ministros adultos? Como obter autorização para investir recursos do Estado?
— …Talvez eu devesse copiar a Serea.
— Copiar?
— Usar pranchas ilustradas, como um teatrinho, e ir mostrando os dados.
— Ótima ideia! Eu ajudo desenhando!
Assim começamos.
Passei no hospital recolhendo estatísticas. Fui à destilaria aprender sobre fermentação e destilação. Anotei tudo. Serea desenhava cenas do tratamento médico, esquemas do alambique.
Entre estudos, treinos e aulas de dança, trabalhávamos até tarde da noite.
Serea ficou hospedada no palácio para ajudar. Espalhávamos papéis, lápis de cera e relatórios pelo chão.
Certa manhã, a chefe das criadas nos encontrou dormindo enrolados em cobertores sobre o tapete.
— Se vão dormir, ao menos usem a cama!
…Espera, isso quer dizer que podemos?
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