Capítulo 04 :: Reunião
— …De quem era aquela voz?
Depois da refeição, Mia dirigiu-se ao salão do Observatório Aéreo. Apesar do nome, o jardim não flutua de verdade. Ele foi construído sobre o teto do Palácio Whitemoon, projetando-se levemente para além das muralhas. Criado com a reunião das mais belas flores de todo o império, o jardim era um lugar magnífico perfeito para recepcionar membros da realeza de outros reinos.
Ela caminhou entre os canteiros por algum tempo, apreciando o perfume delicado das flores. Ainda assim, os pensamentos que a atormentavam não se dissipavam. Havia algo de que precisava se lembrar… algo precioso. Mas essa lembrança parecia envolta por uma névoa espessa, inalcançável, por mais que ela tentasse alcançá-la.
— …Já sei qual é o problema. Ainda não comi doces. Criadas! Tragam-me alguns doces, sim?
Mia bateu palmas, aguardando ansiosamente as guloseimas que lhe haviam sido negadas mais cedo. Sentou-se à mesa em um canto do jardim e esperou por alguns instantes. Logo, viu uma jovem criada aproximando-se. Ao perceber o que ela carregava, os olhos de Mia se arregalaram de expectativa.
Pelos graciosos luzeiros… será que é…?
Um bolo! Era um bolo. Um simples shortcake, coberto com bastante creme e generosas fatias de morango por cima.
Fazia tanto tempo que ela não comia bolos… bolos… e mais bolos!
Não apenas desde que fora capturada e passara seus dias no calabouço mesmo antes disso, quando as finanças do império começaram a ruir, ela já não podia se dar ao luxo de saborear tal doce. Naturalmente, a visão daquela sobremesa a encheu de entusiasmo.
Diante de Mia—
— Oh, desculpe por tê-la feito esperaaaaaar— eeeek!
Bem diante de seus olhos, Mia viu a criada voar! E, claro, o bolo voou junto com ela. Como em câmera lenta, o doce atravessou o campo de visão de Mia, que nada pôde fazer para impedi-lo…
Splatch!
O bolo se espatifou no chão. Milagrosamente, ainda conservava um pouco de sua forma. Mas a verdadeira tragédia estava apenas começando… a criada caiu sobre ele e o esmagou por completo.
Mia ficou sem palavras.
— Anne! O que pensa que está fazendo?!
Uma criada mais velha, que assistira a toda a cena de lado, correu em alvoroço.
— Mil perdões, Vossa Alteza. A senhorita está ferida?
Mia estava atônita, mas logo recuperou a compostura e sorriu.
— Não. Estou bem. Obrigada.
Em outros tempos, a antiga Mia teria gritado e lançado maldições à criada. Contudo, após experimentar os horrores da prisão, sua bondade tornara-se mais profunda que um prato de bolo e seu coração, mais largo que uma xícara de chá. Em outras palavras, agora possuía paciência suficiente para não ser chamada de egoísta embora talvez não suficiente para ser considerada uma pessoa comum.
Ainda assim, era um grande progresso. Sim, as pessoas crescem. Mesmo que seja mais devagar que uma tartaruga… não, que um caracol. Mia está crescendo! Por isso, mesmo agora, mantinha um sorriso no rosto — ainda que um pouco tenso.
— Não tem importância. Basta trazer outro bolo — disse ela, acrescentando, para aliviar o clima: — Mais importante, aquela pobre garota está bem?
Ela já havia evoluído a ponto de conseguir preocupar-se com suas criadas. Além disso, não haveria problema algum se simplesmente lhe trouxessem outro bolo.
— Sinto muitíssimo, Vossa Alteza. Era o único bolo que tínhamos para hoje…
— Você! Venha aqui! Ajoelhe-se imediatamente!
E assim, num instante, ela explodiu. Diante de um bolo arruinado, a tolerância de Mia era tão leve quanto chumbo morto ao vento bastava um sopro para que se dispersasse.
Afinal, o assunto bolo era sério. Ela não comia um havia tantos, tantos anos. Entre o bom senso e o bolo… o bolo sempre venceria.
— Meu bolo… como ousa fazer isso comigo? Você! Olhe para mim!
— Eeeek!
A jovem criada tremia diante de Mia, que batia o pé no chão. Era uma garota de meados da adolescência, talvez alguns anos mais velha que a própria princesa. Tinha cabelos ruivos agora cobertos de creme fresco. Sardas delicadas pontilhavam a ponta de seu nariz, e seus grandes olhos azuis brilhavam cheios de lágrimas.
Era um rosto mais gracioso do que belo. De todo modo, faltava-lhe a aura digna da nobreza. Parecia mais uma garota simples e adorável, como tantas que se encontram nas vilas do interior.
— …Você.
Ao ver aquele rosto, uma lembrança vívida retornou à mente de Mia.
Era uma memória do pior dia de sua vida o dia de sua execução.
Naquela ocasião, ela estivera sozinha no calabouço, aguardando a chegada inevitável de seu destino.
Nenhum comentário:
Postar um comentário